10/09/2013

Antonio Gramsci

Antonio Gramsci (22/1/1891 - 27/4/1937).

  • (32) Cadernos do Cárcere;
  • Cartas do Cárcere.

Ideólogo de referência da nova esquerda.

Estratégia gramsciana - Lenta destruição por dentro dos pilares da cultura ocidental (família, escola, Igreja, sindicatos, partidos políticos, Estado, economia…), até atingir a hegemonia do socialismo.

Ideias principais de Antonio Gramsci

  • Revolução cultural / guerra de posições - Modificação gradual da cultura, das tradições e dos valores do povo, mudando o modo de pensar e de agir da sociedade até esta atingir a hegemonia do socialismo;
  • Hegemonia cultural / bloco hegemónico / consenso;
  • Classe hegemónica e classe subalterna;
  • Modificação do senso comum;
  • O partido como o «moderno Príncipe»;
  • Intelectual orgânico (= ao serviço da mudança para a hegemonia) e a escola unitária (de ensinamentos intelectuais e profissionais iguais para todos, quando crianças, para todos serem filósofos).
Superestrutura Estado ampliado = Sociedade política ou Estado estrito + Sociedade civil
Infraestrutura Sociedade económica

O partido / Estado - «moderno Príncipe» e divindade da crença materialista

«Em todo o livro, Maquiavel trata de como deve ser o Príncipe para conduzir um povo à fundação do novo Estado. (...)

Neste caso se vê que se supõe detrás da espontaneidade um puro mecanicismo, detrás da liberdade (arbítrio impulso vital) um máximo de determinismo, detrás do idealismo um materialismo absoluto.

O moderno príncipe, o mito príncipe, não pode ser uma pessoa real, um indivíduo concreto; pode ser somente um organismo, um elemento de sociedade complexo no qual já tem princípio a realização de uma vontade coletiva reconhecida e afirmada parcialmente na ação. Este organismo é dado já pelo desenvolvimento histórico e é o partido político, a primeira célula em que se agrupam gérmenes de vontade coletiva que tendem a fazer-se universais e totais. (...)

Uma parte importante do moderno Príncipe deverá ser dedicada à questão de uma reforma intelectual e moral, ou seja à questão religiosa ou de uma conceção do mundo.

(...) O moderno Príncipe deve e não pode deixar de ser o pregoeiro e organizador de uma reforma intelectual e moral, o que além disso significa criar o terreno para um ulterior desenvolvimento da vontade coletiva nacional popular até ao cumprimento de uma forma superior e total de civilização moderna. (...)

Por isso, uma reforma intelectual e moral não pode deixar de estar ligada a um programa de reforma económica; inclusivamente o programa de reforma económica é precisamente o modo concreto em que se apresenta toda a reforma intelectual e moral.

O moderno Príncipe, desenvolvendo-se, transtorna todo o sistema de relações intelectuais e morais, ao passo que o seu desenvolvimento significa precisamente que todo o ato é concebido como útil ou danoso, como virtuoso ou perverso, só enquanto tem como ponto de referência o próprio moderno Príncipe e serve para incrementar o seu poder ou para obstaculizá-lo.

O Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico; converte-se na base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações habituais. (...)

Questão do 'homem coletivo' ou do 'conformismo social'.

Missão educativa e formativa do Estado, que tem sempre a finalidade de criar novos e mais elevados tipos de civilização, de adequar a 'civilização' e a moralidade das massas populares mais vastas às necessidades do contínuo desenvolvimento do aparelho económico de produção, e portanto de elaborar até fisicamente tipos novos de humanidade.

Mas como conseguirá cada indivíduo isolado incorporar-se no homem coletivo, e como se produzirá a pressão educativa sobre os indivíduos obtendo o seu consenso e colaboração, fazendo que se convertam em 'liberdade' a necessidade e a coação? Questão do 'direito' (...).»

Crises

«Em determinado momento da sua vida histórica, os grupos sociais separam-se dos seus partidos tradicionais; ou seja, os partidos tradicionais naquela determinada forma organizativa, com aqueles determinados homens que os constituem, os representam e os dirigem já não são reconhecidos como sua expressão pela sua classe ou fração de classe. Quando estas crises têm lugar, a situação imediata torna-se delicada e perigosa, porque o campo fica aberto a soluções de força, à atividade de potências obscuras representadas pelos homens providenciais ou carismáticos. (...)

O facto de que as tropas de muitos partidos passem a colocar-se debaixo da bandeira de um partido único que melhor represente e resuma as necessidades de toda a classe é um fenómeno orgânico e normal, ainda que o seu ritmo seja rapidíssimo e quase fulminante em comparação com tempos tranquilos: representa a fusão de todo um grupo social debaixo de uma direção única considerada a única capaz de resolver um problema dominante existencial e de afastar um perigo mortal. (...)

Uma iniciativa política apropriada é sempre necessária (...) para mudar a direção política de certas forças que é necessário absorver para realizar um novo bloco histórico económico-político homogéneo, sem contradições internas.»

(Cadernos do Cárcere, Caderno 13)

«O que importa assinalar aqui é que tanto o modernismo, como o jesuitismo, como o integralismo têm significados mais vastos que não os estritamente religiosos: são 'partidos' no 'império absoluto internacional' que é a Igreja Romana e não podem evitar colocar em forma religiosa problemas que frequentemente são puramente mundanos, de 'domínio'. (...)

Como deve ser constituído o partido

Para que exista um partido, é necessário que confluam três elementos fundamentais (...):

1. Um elemento difuso, de homens comuns, médios, cuja participação é oferecida pela disciplina e pela lealdade, não pelo espírito criativo e altamente organizativo. (...)

2. O elemento coesivo principal, que centraliza no campo nacional, que faz tornar-se eficiente e potente um conjunto de forças (...). Este elemento está dotado de uma força altamente coesiva, centralizadora e disciplinadora. (...) Este elemento por si só não formaria o partido, mas formá-lo-ia mais do que o primeiro elemento considerado. (...)

3. Um elemento médio, que articule o primeiro com o segundo elemento, que os ponha em contacto não apenas 'físico' mas também moral e intelectual.»

(Cadernos do Cárcere, Caderno 14)


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