Excertos de uma palestra de Yuri Alexandrovitch
Bezmenov (Tomas Schuman) (1939 - 1993), proferida
na Summit University, em Los Angeles, Califórnia,
em 1983
«Subversão, na terminologia soviética, significa sempre
uma atividade distratora e agressiva, visando
destruir o país, nação ou área geográfica
do seu inimigo. (...)
Subversor é um estudante que vem para intercâmbio,
um diplomata, um ator, um artista, um jornalista…
[= um idiota útil] (...)
A subversão só pode ser bem sucedida quando
o iniciador, o ator, o agente da subversão,
tem um alvo que responde. (...)
O primeiro ser humano que formulou as táticas
de subversão foi um filósofo chinês chamado
Sun Tzu (500 a. C.). (...) E ele disse (...)
que, para implementar política estatal (...),
é mais contraprodutivo, bárbaro e ineficiente
lutar num campo de batalha. (...)
A mais alta arte da guerra é não chegar a
lutar; mas subverter qualquer coisa de valor
no país do seu inimigo, até ao momento em
que a perceção da realidade do seu inimigo
deteriora a ponto de ele não o perceber a
si como um inimigo e em que o seu sistema,
a sua civilização e as suas ambições parecem
ao seu inimigo uma alternativa se não desejável,
então ao menos factível. (...)
O básico da subversão está sendo ensinado
a todo o aluno da escola do KGB, na União
Soviética, e a oficiais de academias militares.
(...)
O que é subversão?
Basicamente, consiste em 4 períodos, temporalmente.»
I. DESMORALIZAÇÃO;
II. DESESTABILIZAÇÃO;
III. CRISE
(Guerra civil ou invasão)
IV. NORMALIZAÇÃO.
I. DESMORALIZAÇÃO
«Leva (digamos) de 15 a 20 anos para desmoralizar
uma sociedade. (...) Esse é o tempo suficiente
para educar uma geração de estudantes ou
crianças. (...) Um tempo de vida de uma pessoa,
de um ser humano, que é dedicado a estudar,
a formar a mentalidade, ideologia, personalidade.
(...)
Inclui: Influenciar, ou (por vários métodos)
infiltração, métodos de propaganda, contactos
diretos (...), várias áreas onde a opinião
pública é formada ou moldada. (...)
Há, obviamente, em toda a sociedade, pessoas
que são contra a sociedade. Podem ser criminosos
comuns, em discordância da política estatal;
inimigos declarados; simples personalidades
psicóticas que são contra tudo... E, finalmente,
há o pequeno grupo de agentes de uma nação
estrangeira, comprados, subvertidos, recrutados.
No momento em que todos estes movimentos
estiverem direcionados numa direção, esta
é a hora de agarrar este movimento e continuá-lo
até que o movimento force a sociedade inteira
ao colapso, à crise. (...) Não paramos um
inimigo; deixamo-lo ir, ajudamo-lo a ir na
direção em que nós queremos que eles vão.
Então, na etapa de desmoralização, obviamente
há tendências em cada sociedade, em cada
país, que estão indo na direção oposta aos
princípios e valores morais básicos. Tirar
vantagem destes movimentos, faturar em cima
deles é o maior propósito do originador da
subversão.»
I. DESMORALIZAÇÃO
1. Religião;
2. Educação;
3. Vida social;
4. Estrutura de poder;
5. Relações de trabalho — sindicatos;
6. Lei e ordem.
«Estas são as áreas de aplicação da subversão.
(...)
1. Religião - Destrua-a. Ridicularize-a. Substitua-a
por várias seitas, cultos, que levam a atenção
das pessoas, a fé (seja ela ingénua, primitiva...
não importa muito), desde que o dogma religioso
basicamente aceite seja erodido devagar e
levado para longe do propósito supremo da
religião — [que é] manter as pessoas em contacto
com o Ser Supremo. (...) Logo, substitua
as organizações religiosas aceites, respeitadas,
por organizações falsas. Distraia a atenção
das pessoas da fé real e atraia-as a várias
fés diferentes.
2. Educação - Distraia-os de aprender algo que seja
construtivo, pragmático, eficiente. Em vez
de matemática, física, línguas estrangeiras,
química…, ensine-lhes a história do conflito
urbano, comida natural, economia doméstica,
a sua sexualidade…, qualquer coisa, desde
que afaste.
3. Vida social - Substitua as instituições e organizações
tradicionalmente estabelecidas por instituições
falsas. Tire a iniciativa às pessoas. Tire
a responsabilidade às ligações naturalmente
estabelecidas entre indivíduos, grupos de
indivíduos e a sociedade como um todo e substitua-as
por órgãos artificialmente e burocraticamente
controlados. Em vez de vida social e amizade
entre vizinhos, estabeleça instituições de
assistentes sociais — pessoas que estão na
folha de pagamento de quem? Sociedade? Não:
Burocracia! (...) Para longe dos elos naturais.
4. Estrutura de poder - Os órgãos naturais de administração que
tradicionalmente são eleitos pelo povo em
geral ou indicados pelos líderes eleitos
da sociedade são substituídos ativamente
por órgãos artificiais: órgãos de pessoas,
grupos de pessoas que ninguém elegeu jamais!
(...)
Um destes grupos é a comunicação social.
Quem os elegeu? Como podem eles ter tanto
poder, poder quase monopolista sobre a sua
mente?! Eles podem violentar a sua mente!
(...) Eles têm ousadia de dizer o que é bom
ou mau para o Presidente — eleito por vocês
— e para o seu Governo. (...) Não há mais
concorrência. Estrutura de poder é lentamente
erodida pelos órgãos e grupos de pessoas
que não têm nem qualificação, nem a vontade
do povo para mantê-los no poder, e ainda
assim eles têm poder. (...)
6. Fiscalização, lei e ordem - A organização está sendo erodida. (...)
Se virem os filmes antigos e os filmes novos,
verão que, nos filmes novos, um polícia,
um oficial do exército americano, parece
burro, raivoso, psicótico, paranoico. E o
criminoso parece porreiro; (...) fuma maconha
e injeta qualquer droga; mas, basicamente,
é um ser humano bonzinho. É criativo. E é
improdutivo só porque a sociedade o oprime;
enquanto um general do Pentágono é sempre,
por definição, um burro, um maníaco guerreiro.
O polícia é um porco, um polícia rude, abusa
do poder... (...) O ódio, a desconfiança
para com as pessoas que vos devem proteger
e fazem cumprir a lei e a ordem. Relativismo
moral! (...)
Uma substituição lenta dos princípios morais
básicos, em que um criminoso não é bem um
criminoso: é um réu. Mesmo que a sua culpa
esteja provada, há ainda uma dúvida. (...)
5. Relações trabalhistas - Nesta etapa, dentro de 15 a 20 anos, destruímos
os elos tradicionalmente estabelecidos de
negociação entre patrão e empregado. (...)
É a morte da troca natural, a morte da negociação
natural.
Os sindicatos foram estabelecidos há cem
anos atrás. O objetivo era melhorar as condições
de trabalho e proteger os direitos dos trabalhadores
daqueles patrões que estavam a abusar do
seu direito porque tinham mais dinheiro.
Objetivamente, naquela época, inicialmente
o movimento dos sindicatos funcionou de facto.
O que vemos agora é que o processo de negociação
não está mais a resultar no acordo que leva
diretamente à melhoria de condições de trabalho
e aumento de salário. O que vemos é que,
após cada greve prolongada, os trabalhadores
perdem (...), não conseguem recuperar por
causa da inflação e do tempo perdido. Mais
que isso: Milhões de pessoas sofrem com aquela
greve, porque agora a economia é interdependente,
está entrelaçada como um único corpo. (...)
Quem ganhou com isto? Os líderes do sindicato.
Qual é o motivo da greve? (...) IDEOLOGIA!
Para mostrar a esses capitalistas! (...)
Sempre que um sindicato entra em greve, temos
um influxo de propaganda, meios de comunicação
social, disseminação ideológica: 'O direito
dos trabalhadores'! (...) Direito de quem?
Dos trabalhadores? Não! A única liberdade
do trabalhador (...) é-lhe tirada (...) pelo
chefe do sindicato. É dado poder ilimitado,
responsabilidade... (...)
Fui forçado a acreditar pela comunicação
social, pelas empresas, por agências publicitárias
que preciso de mais e mais e mais! Já viram
alguma publicidade na TV para consumir menos?
Não! De modo nenhum! (...)
Atolávamos editoras, organizações estudantis,
grupos religiosos, com literatura de luta
de classes, se não diretamente com propaganda
marxista-leninista, então propaganda de aspirações
legítimas da classe operária: melhoria de
vida, igualdade... (...)
Construímos a nossa sociedade sobre o princípio
de igualdade. Vocês dizem: 'As pessoas são
iguais'. Sabem que é falso, é uma mentira!
(...) Se as fazemos iguais à força, se colocarmos
o princípio da igualdade na base da nossa
estrutura sociopolítica, é o mesmo que construir
uma casa na areia. Cedo ou tarde, ela vai
desmoronar; e é exatamente o que acontece.
(...) Mas sabemos perfeitamente bem que,
mesmo com as melhores intenções, as pessoas
não poderiam ser iguais. (...) E o sistema
de propaganda soviética ajuda-nos a acreditar
que igualdade é algo desejável. (...) E a
igualdade absoluta existe na União Soviética.
'Igualdade': Toda a gente está igualmente
na lama, exceto algumas pessoas que são mais
iguais que as outras, no Politburo.
Então, no momento em que vocês levam um país
ao ponto de quase total desmoralização, em
que nada funciona mais, quando não têm a
certeza do que é certo ou errado, bom ou
mau, quando não há divisão entre o bem e
o mal, (...) o próximo passo é desestabilização.»
II. DESESTABILIZAÇÃO
«Desestabilizar todas as relações, todas
as instituições e organizações aceites no
país do seu inimigo.
(...) Então, a área de aplicação aqui estreita-se
para»:
1. Economia — relações trabalhistas;
2. Lei e ordem e militares;
3. Comunicação social, «mas um pouco diferente. (...)
1. Economia - A radicalização do processo de negociação.
(...) Na etapa de desestabilização, não chegamos
a um acordo nem dentro de uma família. O
marido e a mulher não poderiam descobrir
o que é melhor. (...) É impossível chegar
a um acordo (...) construtivo entre vizinhos.
(...) Eles não entram em acordo: Vão para
um tribunal ou coisa assim.
Radicalização de relações humanas, sem mais
acordo. Luta, luta, luta! (...) As relações
entre professores e alunos em escolas e universidades:
luta! As relações, na esfera económica, entre
empregados e patrões são mais radicalizadas:
Não há mais aceitação da legitimidade das
exigências dos trabalhadores. (...) Quanto
mais difícil a luta, melhor, mais heroicos
eles parecem. (...) Os embates violentos
entre passageiros, piquetes e os grevistas
são apresentados como algo normal. (...)
Radicalização, militarização, às vezes (...).
2. Lei e ordem - Também é empurrada para áreas em que as
pessoas antes resolviam as suas diferenças
pacificamente e legitimamente. Agora, estamos
a ficar com esses casos judiciais nos casos
mais irrelevantes. Não podemos mais resolver
os nossos problemas. A sociedade como um
todo fica cada vez mais antagónica entre
indivíduos, grupos de indivíduos e a sociedade
como um todo.
3. A comunicação social coloca-se em oposição à sociedade em geral,
como um todo, separada, alienada.
(...) Os adormecidos acordam! (...) Agem
proeminentemente. Incluem-se ativamente no
processo político. De repente, vemos um homossexual...
(...) Exige reconhecimento, respeito, direitos
humanos, e junta um grande grupo de pessoas.
(...) E há choques violentos entre ele e
a polícia, o grupo dele e pessoas comuns.
(...) Não importa onde está a linha divisória,
desde que este grupo entre em choque antagónico,
às vezes militarmente, às vezes com armas
de fogo. (...)
Os adormecidos (...) tornam-se líderes do
processo de desestabilização. (...) A pessoa
que toma conta já está aqui! É um cidadão
respeitado (...). Às vezes, recebe dinheiro
de várias fundações para a sua luta legítima
a favor de (sei lá!) direitos humanos, direito
das mulheres, (...) seja o que for.»
III. CRISE
«O processo de desestabilização, normalmente,
leva diretamente ao processo de crise. (...)
O processo começa quando os órgãos legítimos
de poder, a estrutura social, desmoronam,
não podem funcionar mais. E então nós temos
órgãos artificiais injetados na sociedade;
tais como comités não eleitos (...); assistentes
sociais, que não são eleitos pelo povo; comunicação
social, que são os senhores autoinvestidos
da sua opinião; alguns grupos estranhos,
que alegam que sabem como guiar a sociedade
para a frente. Em geral, não sabem. Tudo
o que eles querem saber é como coletar doações
e vender a sua própria ideologia misturada,
misto de religião e ideologia. Aqui, temos
todos estes órgãos artificiais exigindo poder.
Se o poder lhes é negado, tomam-no à força.
(...)
A crise é quando a sociedade não pode mais
funcionar produtivamente: desmorona. (...)
Portanto, a população como um todo anda a
procurar um salvador. (...) Os trabalhadores
dizem: 'Temos família para alimentar! Vamos
ter um Governo forte, talvez um Governo socialista,
centralizado, onde alguém coloque os patrões
nos seus lugares e nos deixe trabalhar! Estamos
cansados de greve e de perder horas extra
e todas essas coisas. (...) Um líder, um
salvador, é necessário.' A população já está
irritada e cansada. (...)
Ou uma nação estrangeira vem; ou o grupo
local de esquerdistas, marxistas... não importa
como eles se chamam (...). Vem um salvador
e diz: 'Eu guiar-vos-ei!'
Então, nós temos duas alternativas aqui:
guerra civil e invasão.»
IV. NORMALIZAÇÃO [= ditadura]
«'O país está normalizado.' (...) Normal.
Normalização.
Nesta etapa, os governantes autoinvestidos
da sociedade não precisam de mais nenhuma
revolução, não precisam de mais nenhum radicalismo.
Então, este é o reverso da desestabilização;
basicamente, é estabilizar o país à força.
Então, todos os adormecidos, e ativistas,
e assistentes sociais, e 'liberais', e homossexuais,
e professores, e marxistas, e leninistas…
são eliminados; fisicamente, às vezes. Já
fizeram o serviço deles. Não são mais necessários.
Os novos governantes precisam de estabilidade
para explorar a nação, para explorar o país,
tirar vantagens da vitória.
Então, chega de revolucionários, (...) chega
de revoluções, por favor! Normalização, agora.
De agora em diante, chega de greves, chega
de homossexuais, (...). Ponto final! Boa
e sólida liberdade proletária democrática!... E pronto.»
(Yuri Alexandrovitch Bezmenov)